- Cadê a sua fantasia? – Minha amiga toda pintada veio em
minha direção e eu revirei os olhos. – Não acredito que você não trouxe! Eu
implorei tanto e mesmo assim... – Ela começou a fazer cara de choro e bufei
parando de andar na hora.
- Tá na minha bolsa, será que dá pra ter um pouco de calma?
– Exclamei irritada. Esse tipo de coisa não era para mim. Afinal, qual é o
sentido de se vestir como um cadáver ou morrendo ou com algum sangue por aí no
dia 31 de outubro? Nenhum. Nenhum mesmo. Só perca de tempo.
- Não precisa ficar assim. Vamos, eu te ajudo. – Gabriella
começou a me puxar para o banheiro e eu me contorci para não tirar meu pulso do
seu aperto de ferro. – Vai ficar maravilhosa, porque eu trouxe maquiagem.
Estanquei na porta do banheiro.
- Não. Nem pensar. – Falei na lata enquanto ela tentava me
tirar do lugar.
- Vai. Prometo ser boazinha. – Ela implorou novamente como
no telefone ontem, só que mil vezes mais leve.
A porta do banheiro se abriu e revelou uma loira com um
vestido branco, olheiras pretas em volta dos olhos e costuras pelos braços.
- Está pronta pra perder a competição, Daniele? –
Competição? Que raios...?
- Ela vai ganhar Sabrina e então vamos esfregar na sua cara
o quanto você é uma perdedora mesquinha e retardada para toda a escola. Se
prepare, vai ser divertido. – Dessa vez quando Gabriella me puxou, meus pés
conseguiram se mover com minha cabeça ainda meio perdida nas confusões de
alguns segundos atrás.
- Certo, o que foi aquilo? Você nunca foi disso, quem dá a
bronca nela geralmente sou eu e raramente isso acontece também. Qual é? – Parei
em frente ao espelho vendo minha amiga trancar o banheiro e tirar toda a sua
maquiagem que não era pouca da bolsa.
- Nós duas sabemos que você é a garota mais bonita do ensino
médio. – Claro, isso era a teoria dela. Lembre-se disso, eu jamais seria assim
tão convencida. – Então hoje vamos ter um concurso que foi anunciado de última
hora ontem no facebook. Esqueço que você não tem isso também. – Ela soltou o
ar, olhando para mim. – Vamos fazer você ganhar, afinal você tem a roupa e o
potencial para isso. E o objetivo é mostrar para os garotos que não são só as
patricinhas que mandam nessa escola e podem ser especial e inteligentes, todas
nós podemos ser.
- Aham. – Ela começou a passar o pó branco pelo meu rosto. –
Só para isso? E por que agora? Da onde veio essa coragem toda? – Estava
realmente confusa, não era do feitio de Gabi.
- Cansei de esperar Estevão olhar para mim. – Continuou a
passar o pó pelo meu pescoço indicando para eu tirar a blusa. Sem querer
discutir com ela tirei e ela continuou a passar o pó por meus ombros. – Eu
gosto dele e quero que ele venha até mim. Pelo menos reparar. Você sabe que
pelas mensagens não deu certo, sou uma idiota. – Ri sozinha.
- É, mandar um “eu te amo” para testar o canal não foi uma
boa ideia. – Eu continuei a rir, enquanto ela me ignorava pegando o lápis
preto.
- Você é uma idiota. Agora não pense que estou te usando.
Você também terá seus privilégios de uma notinha a mais e também mais atenção
dos garotos quando ganhar. – Ela fez alguma coisa no meu rosto com o lápis,
pegando uma sombra preta em seguida.
- Entendi, mas como Estevão vai reparar em você? – Perguntei
curiosa, afinal ela estava bem envolvida com essa ideia.
- Você vai me apresentar como sua ajudante, sabe... Que
arrumou você toda, o que não é mentira, porque você não faria nada sozinha. Vai
ter um momento que talvez o microfone vá para sua mão e essa é minha
oportunidade de aparecer. – Agilmente meus olhos pareciam estar prontos. Ela
era boa em maquiagem, aliás, tinha feito um curso muito bom na capital.
- Perfeito seu plano. Queria te perguntar mais uma coisa. O
que vou ser com essa roupa decotada? – Levantei uma sobrancelha, lembrando-me
do decote da pequena blusa que ela tinha mandado para mim.
- Como pensei que todas iriam estar de noiva cadáver, eu
pensei em... Puta cadáver. – Eu arregalei os olhos.
- Você só pode estar brincando! – Exclamei, vendo que o
rosto dela tremeu um pouco. Ela sabia que eu não iria gostar nada dessa parte
do plano. – Eu tenho que ser a vaca! Ah, muito bom. – Emburrei, mas logo parei
para ela continuar na maquiagem sem saber o que ela estava fazendo agora.
- Só hoje. – Ela murmurou passando batom na minha boca.
Em seguida eu fui me trocar a mando dela e lá estava eu
vestindo uma meia preta com buracos, uma botinha preta sem cano com saltos,
short preto jeans, top preto e um colar que parava no vão dos meus seios
juntos. Isso tudo iria ser constrangedor.
- Está ma-ra-vi-lho-sa. – Eu tremi com a fala dela que
continuou a passar pó branco nas partes que apareciam do meu corpo.
A porta do banheiro começou a levar batidas intermináveis
das meninas apertadas do lado de fora e a minha amiga berrava “usem o da
secretaria, suas desesperadas, estamos aqui num processo delicado!”. Engraçado
de se ver.
Continuou a fazer mais uns cortes por mim, remendados,
colocou uma faca falsa como se estivesse atravessando minha barriga. Ela estava
fazendo um trabalho meticuloso, porque trouxe guache fazendo o sangue na minha
barriga e costas onde a faca supostamente atravessava. Colocou um pouco de
sangue no meu pescoço escorrendo para os meus seios para dar mais um ar de...
Meretriz sexy até na morte.
Quando me olhei no espelho notei que metade da minha boca
estava branca costurada e a outra com um vermelho vivo. Olhos pretos em volta.
E nessa hora ela pegou meus cabelos longos que batiam nas costas meio castanhos
com ruivo, porque eu tinha pintado de vermelho havia um tempo e prendeu de
lado, no alto dando um ar mais... Jovial. Uma vaca na flor da idade. Eu estava
assim realmente, não tem como suavizar o palavreado.
- Está perfeitamente linda.
- Ou feia. – Eu ri da brincadeira e ajeitamos nossas coisas,
saindo do banheiro.
E quando saímos foi como se eu tivesse ido a Victoria
Secret’s e colocado aquele sutiã de diamantes. Mais ou menos isso.
- Vai ser um inferno. – Tremi enquanto andava pela escola
com os olhares em mim.
- Você vai arrasar. Agora se comporte até o intervalo que é
quando vou te ver de novo. Tá um badalo. – Rindo ela foi até a sala dela e eu
caminhei até a minha tentando me esconder durante as aulas e essa foi minha
maior preocupação. O problema é que eu nem podia colocar minha blusa de frio
com aquela faca atravessando minha barriga.
O interessante mesmo foi ver minha escola levando o evento a
sério. Não que não tivesse outras competições, mas essa estava mais bem produzida,
eles tinham se inspirado mesmo com uns panos pretos descendo do teto do ginásio
e microfone e tal. Eu coloquei meu nome na lista e fiquei na fila das garotas
que tinham se envolvido no concurso.
- Quer uma água? Ah não, vai estragar sua maquiagem.
Divirta-se, vou estar lá na plateia. – Gabi apontou o lugar dela no ginásio
enquanto eu assentia, vendo John, nosso amigo bem ao lado dela.
- Valeu. – Era tudo o que eu podia dizer e continuei na
fila, até que música começou a tocar e o negócio ficou badalado. As garotas iam
à frente e os meninos estavam caindo em cima.
Era engraçado porque eles ficavam cantando as meninas e
falando na cabeça dos professores jurados. A diretora Doyle não conseguia
contê-los na faixa limite. Sabrina passou por mim e deu uma boa olhada, um
olhar de inveja o que me deixou muito esperançosa e feliz para ganhar.
Passou na minha frente e eu deixei. Quanto mais para o
final, mais impacto.
Num súbito pensamento, tive uma ideia. Todas desfilavam na
passarela, então eu iria fazer algo diferente. Chegou à minha vez e comecei a
andar me demorando mais que as outras até chegar à frente dos jurados que
estavam lendo minha fixa. “Essa é Daniele, 3º ano do ensino médio com a
fantasia de... Puta cadáver.” Isso me pareceu uma pergunta vinda do professor
que narrava e queria rir, mas me contive.
Depois disso eu ainda estava parada no meio da passarela com
algumas vozes começando a se alterar. Então andei sedutoramente até meus
jurados e os garotos se calaram com os olhos arregalados, loucos para me
tocarem e isso era bem nítido. Não sabia até que limite poderia ir, mas mandei
um beijo para um dos professores e passei a mão na barba de outro enquanto
passeava pela mesa e fazia meu papel de vaca cadáver. Algumas mãos me tocaram e
pra entrar no clima, olhava com um olhar penetrante até que saí da passarela e
bem... Houve aplausos. Meu coração acelerou. Onde estava a verdadeira Daniele?
- Você é quente. – Veio um garoto pegando em minha cintura,
então bufei.
- E você um idiota. Tira sua mão podre de mim. – Vociferei;
então ele se afastou meio desnorteado enquanto a senhora Doyle tentava barrar
uma multidão atrás de mim. Sem me gabar, claro.
As outras depois de mim tentaram fazer um teatro também, mas
assim... Como noiva não dá para fazer um teatro bacana. Você está amarrada com
um cara. E as que estavam de outra coisa simplesmente passaram pela pista e
saíram fora. Quem dera poder fazer isso.
Logo depois teve a competição de homens e bem... Alguns
foram realmente originais. Um em especial. Eu ouvi seu nome, mas não me
lembrava de tê-lo visto pelo colégio antes. Estava sem camisa e não era uma
cena ruim de ver. Trouxe bolinhas para fazer espetáculo como de circo sendo um
palhaço triste cadáver, ele foi tão original que fingiu engolir as bolinhas e
eu não sei como ele conseguiu fazer isso.
Enfim, tirando a atenção do palhaço branco, foram outros e
logo mais iria ser a decisão. Não demorou muito e fomos todos chamados a
frente. Na expectativa, ficamos eu e Sabrina na decisão. E numa salva de palmas
e urras eu fui a escolhida. Sorri, nervosa e mesmo não tendo sido convidada
peguei o microfone da mão da diretora. Afinal, ousar mais do que eu já tinha
ousado não seria nada de ultrapassar limites...
- Agradeço muito, principalmente a Gabrielle Figueiredo.
Sentada bem no canto do ginásio, na segunda fileira. – Olhei para Estevão e
sim, ele olhou para lá. – Foi ela que fez meu visual. Obrigada. – Devolvi o
microfone à diretora que meio desnorteada, continuou a falar.
- Bem e o resultado dos meninos vai para... Michael Moreira.
– Era o palhaço que fez o mesmo que eu. Tirou o microfone da mão da diretora.
- Queria pedir... – Que voz, senhor! – Na verdade, eu queria
dizer que fiz tudo isso, treinei malabares, coloquei essa roupa somente para
uma coisa. Daniele, – Ele olhou para mim. Olhou para mim! – Qual é a chance de
você me dar uma chance?
Então minha ficha caiu. Ele não era um desconhecido, como
não conheci sua voz? Bem, ele era da escola que eu tinha saído quando estava no
1º ano do ensino médio, mas ele estava maior... Bem maior. Ele já era bonito no
primeiro ano no outro colégio, mas era um tonto porque seguia tudo aquilo que
os outros diziam, ficando bêbado e coisas assim. Eu realmente não gostava
disso. Ele devolveu o microfone a diretora vendo que eu não respondia nada e
foi até mim, eu precisando olhar para cima para encarar seus olhos.
- Acho que quer uma explicação. – Ele disse me olhando nos
olhos. – Antes... Você lembra de mim?
- Ah, sim. – Assenti ainda boba. – E sim também. – Ele riu
deixando meu queixo pronto para cair, mas me contive.
- Queria ficar com você desde a 7ª série. – Ele suspirou e
meu coração deu um pulo. Não é todo dia que se ganha uma declaração dessas. –
Mas você não queria saber de mim, só do Jonas. – Murmurando mais para mim,
sabendo que todos ainda estavam com os olhos colados em nós, mesmo com a
diretora continuando a falar no microfone. – Comecei a me envolver com outras
pessoas da nossa sala se você lembra... Do Steve, Jéssica. Perdi meu rumo na
vida e achei que tinha me livrado desses seus malditos olhos verdes. – Meu
queixo caiu nesse momento da fala dele. – O problema que quando você mudou me
desesperei e só nesse último mês consegui uma transferência para cá depois de
tanto insistir para meus pais, eu precisava te ver e tirar todos esses anos
perdidos sem nem falar com você. – Suas mãos se encaixaram levemente por meu
rosto e eu conseguia sentir a satisfação dele de estar perto de mim só com seu
toque. Como eu não falava nada ele continuou. – Estive por aqui durante um mês
e você não saia da frente do livro de Nicholas Sparks enquanto estava no
intervalo então nem tinha ido falar, achando que hoje seria mesmo o dia
perfeito. – Ele deu um sorrisinho, me
deixando ainda mais perdida nele. - E então...? Tenho minha chance?
Coloquei minha mão pela sua, fechando a minha nela. Ele
estava tão radiante, tão feliz mesmo sem ter minha resposta ainda. Fechei meus
olhos com um sorriso brincando em meus lábios.
- Acho que não. – Murmurei abrindo meus olhos novamente. Ele
parecia pálido e não pela fantasia. Todos nos olhavam, mas desse momento em
diante passei a ignorá-los.
- Não? – Dor.
- Não, por agora. – Dei um sorriso, nervosa. Vários tentaram
já me cantar ou namorar, mas esse... Tinha feito tanta coisa por mim e ainda
tinha tirado meu coração dos eixos. – Deixe-me pensar sobre tudo isso. Podemos
sair e conversar sobre. Eu iria amar sair com você. – Sorrindo notei que o
sorriso dele se abria me pegando e me abraçando logo em seguida.
______________________________________________ XXX
- Você é sortuda pra caramba. – Gabi murmurou no celular a
noite, comendo pipoca na frente da televisão. Tinha certeza. Tinha contado toda
a minha história para ela.
- Mas e com o Estevão? Deu certo? – Perguntei, porque a
gente não tinha conseguido se falar depois da aula.
- Na verdade não. – Depois de um minuto respondi meio...
Alterada.
- TÁ FALANDO QUE ME VESTI DE PUTA PRA NADA? – Vociferei
mesmo.
- Vai gritar pra sua avó. – Ela disse calma, e entediada. -
Você conseguiu o cara mais gato do colégio agora graças a mim e minha fixação
por Estevão. E não foi pra nada por que... Depois do ato de coragem do seu
garoto, John decidiu se declarar por mim.
- Uou. Que dia. – Eu ri, boba segurando o celular.
- Nem me diga. – Rimos juntas. De pobres mortais a garotas
mortais. Se é que me entende.
{Se gostou, COLOQUE SEU COMENTÁRIO. Okai? HAUEH. Se quiserem mais eu provavelmente vou colocar, mas só se tiver ibope u_u Beijos. (: }