sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Encontrando o recheio.

Ela era extremamente delicada e cuidava da sua casa com carinho, mesmo sendo sozinha. Ajeitava seus pequenos cupcakes numa travessa mais alta pela ilha que havia na sua cozinha, deslizou um pano limpando a bancada lentamente tirando os resquícios de bolo e foi lavar a pia. Lavou a louça e voltou para seu quarto atravessando a grandiosa sala, lançando-se nas escadas. Houve a pronúncia de um sorriso triste, ela sabia que mesmo sozinha ainda era feliz. Talvez.
Mirou-se para seu quarto abrindo a porta e deixou-se cair na cadeira moderna e fofa em frente ao seu notebook, continuando a escrever sua delicada história de uma mulher triste o tanto quanto ela. Entretanto perder alguém no meio da caminhada e ficar sozinha era pior do que ser sozinha desde sempre. Talvez.
Digitou apenas duas linhas, pronta para explodir. Todos os dias tinha lidado bem com a solidão, mas naquele momento algo a apertava. Não havia ninguém para comer seus bolos, sua comida, não havia ninguém para mostrar seu trabalho e contar coisas banais ou íntimas. Ela se ressentiu, colocando o rosto nas mãos, chorando copiosamente. Devia ter aceitado um pedido de casamento há algum tempo atrás, afinal ele sempre havia sido a pessoa com quem ela pensava em partilhar a vida toda, mas a carreira falava mais alto aos ouvidos e a conciliação das duas responsabilidades parecia pesar. Entretanto hoje, ela sabia que não precisava ter escolhido, se tivesse que escolher, no entanto teria escolhido ele.
Calçou suas botas pretas e agarrou seu casaco de lã para sair pela porta. Vestiu e notou a neve acumulada no chão ao fechar a porta iniciando um pequeno trajeto até o centro da cidade a passos curtos.
- Senhorita Doyle que surpresa vê-la por aqui. – O dono da loja de doces tinha acostumado com sua presença ali, principalmente porque ela levava algumas de suas receitas na loja, por isso seu comentário havia sido irônico. Um pequeno sorriso se pronunciou nos lábios da nossa personagem.
- Igualmente. – Ela sorriu, apoiando as mãos na bancada dos doces olhando para eles, alguns dela de ontem. – Posso fazer as tortas de limão aqui por hoje?
A pergunta soava estranha para o dono da loja que cozinhava sozinho e vendia seus doces naquela cidade vazia e calma. Levantou uma sobrancelha e assentiu percebendo que algo estava errado com a pequena moça que trazia seus doces para serem vendidos.
- Fique à vontade, só certifique-se de que o jovem que contratei concorda com a situação de você estar junto dele na cozinha que não é muito grande. – Um choque passou pelos olhos de Doyle que o senhor logo a sua frente notou. – Sim, contratei alguém. Minha esposa não anda bem para cozinhar durante todo o dia e sei que você tem seus livros para vender, então decidi contratar alguém da cidade ao lado, porque aqui parece que só vocês duas sabem cozinhar.
Rindo com a declaração do senhor idoso a sua frente, esquecendo-se das coisas sofridas anteriormente em casa, Katlyn atravessou por baixo do balcão seguindo para a porta da cozinha.
- A senhora Grenne tem realmente o dom de cozinhar. Ela tem algo grave? – Franzindo a testa ela analisou o senhor baixo, arcado com seus cabelos brancos a sua frente sabendo que era algo grave.
- Estamos velhos menina. – Ele disse sentando no banco do caixa, olhando através do vidro que ficava em frente ao local do pagamento, olhando sem ver. Olhando para fora. – Estamos cansados, não é como ter 30 anos. Sabia que uma hora as pernas de minha mulher falhariam, e suas costas ficariam doloridas por dias, assim estava preparado com telefones e contratei alguém. Isso se chama velhice, mas ela está bem. – Ele sorriu fraco lembrando-se dos dias da juventude e de um piquenique com sua mulher, fracassado pela chuva. Dia divertido.
- Entendo. Se precisar de algo me procure senhor Grenne. – Katlyn suspirou, empurrando a porta de acesso a cozinha. – Se me der licença, vou preparar a torta.
- Sinta-se em casa querida. – Ele disse ainda focalizando o nada.
Ao entrar deparou-se com um homem alto com aproximadamente 1,90 metros de altura. Ele batia o chocolate derretido numa travessa de vidro olhando a receita atentamente, batendo com força talvez até desnecessária o chocolate. Percebia seus músculos tensos pelo trabalho e talvez por algo mais que não sabia dizer o por quê. O avental estava amarrado a sua cintura, mas parecia muito menor do que ele, deixando-o enorme sobre o pequeno uniforme com sua camiseta e seus jeans soltos por baixos do avental. Deixou a porta escapar de suas mãos e o rangido das dobradiças fez o homem olhar para ela, confuso.
- Desculpe. – rapidamente pronunciou, vendo os olhos cor de mel claros como o raiar do sol pela manhã. Segurou o ar por um segundo. - Queria saber se posso me ajuntar a você. Eu sou Katlyn Doyle. – Estendeu a mão no curto espaço que tinham e ele apertou a mão dela ainda receoso e confuso.
- Não me entenda mal, mas achei que só eu havia sido contratado. – Ele mencionou dando a deixa para a mulher ali presente assentir.
- De fato. Eu às vezes faço alguns doces na minha casa para vender e trago ao senhor Grenne, hoje decidi vir à sua cozinha da loja, algo inédito. Ele pediu para que pedisse sua permissão para permanecer aqui e fazer minha tradicional torta de limão. – Ele suavizou sua expressão e apoiou os quadris no balcão. – Posso?
- Claro. – Ele se lembrou de responder, deixando passagem para a pequena mulher passear pela cozinha a qual inicialmente estava disponível para ele. Ela procurou algumas vasilhas, pegando outros objetos os quais eu também usava para fazer meus doces. Com calor dentro daquela cozinha apertada ela retirou seu pesado casaco de lã colocando-o sobre um cabide perto da porta.
Ao pegar os ingredientes ela se atrapalhou com suas próprias mãos deixando o leite derramar na pia enquanto tentava alcançar algo no armário de cima. Robert tinha que admitir que aquela visão fora muito bonita daquela mulher. Baixa, com seus cabelos castanhos claros presos num coque, cheia de curvas e lábios segurados por seus dentes de maneira apreensiva pelo leite era de fato muito bonito.
- Deixe-me te ajudar. – Se ofereceu, vendo-a assentir. Segurou o leite, escutando a água da pia escorrer deixando-a lavar a mão, tirando o leite. – O que precisa daqui? – Perguntou.
- Farinha de trigo, por favor. – Ela agradeceu com seu olhar expressivo verde profundo e ele se  perguntou quando raios sabia o que era um olhar expressivo. Saindo da cozinha ela procurou um pano e voltou para limpar a bagunça que tinha feito. Depois de tudo limpo e mais do que perfeito ela voltou a cozinhar e Robert também.
Calmamente ele contava o interior dos morangos restantes e depois de coloca-los dentro de uma bandeja, preenchia um a um com o chocolate derretido que havia preparado, todos pareciam deliciosos. À medida que completava os morangos Katlyn preparava a torta e estava no final da mesma colocando a massa na geladeira e começando o recheio, ela estava tão atarefada e concentrada que Robert deixou parar o silêncio no lugar. Terminando seus morangos levou-os para o balcão deixando na exposição, vendo uma pequena fila na porta da doceria.
- Estavam esperando algo do novo cozinheiro, aqui está senhoras e senhores. – O velho era uma simpatia de pessoa e apesar de Robert ser frio e na maioria não gostava de demonstrar seus sentimentos, deu um breve sorriso e algumas mulheres da fila se deslumbraram com a masculinidade presente naquele recinto e naquela pequena cidade.
Ao voltar na cozinha, ele teve que se esgueirar pelo canto, pois Katlyn tirava sua torta do forno, ocupando todo o espaço com sua redonda, cheia e pequena bunda. Respirando fundo, Robert esperou ela se endireitar. Rapidamente ela o fez, deixando o doce por cima da bancada, tirando a luva.
- Mudou-se para cá? – Ela perguntou tentando articular algo para a conversa, mas ela mal sabia o quanto introvertido seu parceiro de cozinha era, aproveitando para vir a uma cidade pequena para se isolar no mundo e não ter que falar com ninguém e se não visse ninguém melhor ainda. Entretanto lá estava ela, cruzando uma das pernas por cima da outra apoiada no balcão pela cintura, batendo os dedos na lateral dos armários de baixo da cozinha.
- Sim. – Respondeu baixo deixando visível o seu desconforto.
Ela decidiu terminar sua torta enquanto ele começava outro doce, então deixaram o silêncio pairar na cozinha, um silêncio incômodo. Katlyn terminou a torta, deixando-a por cima do balcão.
- Está pronta para servir. – Ela anunciou, indo a um dos cantos da cozinha e pegando seu casaco para colocá-lo passando por seus braços. – Acho que vou indo. Bem-vindo a cidade. – Sorrindo, meio triste por não ter conversado com o belo moço novo da cidade que tinha conhecido, abriu a porta da cozinha.
- Obrigado Katlyn. – Ele disse e como num choque segurou a porta para ela que estancou no lugar e se virou um pouco. – Tenho uma entrega para fazer amanhã numa festa, será que poderia me ajudar? Não sei se consigo fazer tudo a tempo. – Ele soltou quase toda a verdade, sendo que ele conseguiria dar conta do recado mesmo sem a ajuda dela, mas por alguma razão não queria mais ficar sozinho.
Tinha estado sozinho há alguns anos, mas agora encarando aqueles grandes olhos verdes tinha percebido que não era a melhor solução para curar as feridas que ainda tinham seu coração. Somente o trabalho não era interessante, algo o podia incrementar e quem sabe num futuro talvez...
- Adoraria. – Katlyn abriu um sorriso enorme que chegou a tocar seus olhos. - Chame-me de Kat...
- Robert Wather. – Ele completou com um meio sorriso, nova característica de seu rosto. – Até amanhã Kat.
- Até mais Rob. – Soltou sorridente com ar de murmúrio baixo deixando Robert fechar a porta da cozinha. Suas bochechas esquentavam lentamente quando saía da pequena loja com mil pensamentos de como as coisas poderiam se tornar mais interessantes na sua vidinha.
Além disso, outro que parecia contente. Um velho senhor sentado no caixa que sabia que a vida sem sua companheira que permanecia em casa seria vazia, sem complemento, sem o recheio do bolo da vida. Tentar proporcionar isso para os outros era somente uma pequena ajuda para tudo se tornar mais delicioso no futuro. 

{Não reparei em erros de português porque eu escrevi e já coloquei aqui, depois eu verifico. Aproveitem!}

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Cross-country para um teimoso (Olimpíadas de inverno)

Iria ser tremendamente perigoso. O joelho dele tinha acabado de ficar razoavelmente bom e ele tinha insistido para participar do torneio nacional de Cross-country mesmo daquele jeito sem treinar durante uns três meses, era um cabeça dura.
- Eu vou ficar bem, Cath. – Ele disse pra mim sentado na poltrona do avião, seguindo para a cede dos jogos. – Você se preocupa muito. Eu treinei minha vida inteira, para com isso. – Estávamos quase brigando e fazia muito tempo que não fazíamos isso, mas eu estava preocupada, até mesmo o treinador dele. Como o treinador não queria perder seu competidor no nacional, claro que o deixou ir e incentivou mesmo sendo arriscado.
Tranquei os braços por meu peito, suspirando. Era impossível falar com ele ainda mais dentro do avião, então ficamos sem nos falar até praticamente agora que fui onde ele estava colocando sua roupa de treino. Abracei-o forte, tentando prender seu corpo no meu para que ele não fosse competir.
- Boa prova. – disse por cima do seu peito nu, beijando-o de leve.
- Obrigado, só não me distraia desse jeito. – Ele sorrindo, segurou meu queixo beijando meus lábios levemente. Começou a segurar meu rosto e o beijo se tornar mais profundo quando o treinador dele entrou na sala, sem bater.
- Daniel, eu... – Ele nos viu abraçados e corou nas bochechas deixando um sorriso no meu rosto. – Desculpe.
- Tudo bem, eu estava de saída. – Disse, apertando a mão do meu marido, saindo pela porta e procurando meu lugar na arquibancada perto da pista de esqui para vê-lo. Eu estava nervosa por ele. Pelo joelho dele. Naquele frio, abaixei minha toca diversas vezes como um reflexo claro de quanto eu estava nervosa.
Depois de alguns minutos ele apareceu no telão do nacional, acenou quando disseram seu nome e eu o achei lindo como na primeira vez que o vi. Todo garotão no bar conquistando todas as mulheres bonitas eu posso dizer que estava entre elas e é interessante como ele me escolheu e escolheu somente uma, nos indicando que a natureza natural das coisas espera que tenhamos uma parceira no resto das nossas vidas e vice-versa.
Ouvi o início da prova. Ele saiu com toda a sua energia, e eu abaixei minha toca outra vez. O trajeto ela longo e o técnico dele esperava na linha de chegada, ele estava na frente, mas com dificuldades porque os outros competidores o espremiam. Eu levantei, batendo o pé, tentando manter minhas mãos quietas segurando no ferro que tinha na arquibancada, não queria que ele se machucasse outra vez. A prova estava no fim e outro estado forte nesse esporte se aproximava de Daniel, ele forçou mais. Bati meu pé uma vez. Daniel com expressão dolorida. Duas vezes. Daniel respirando com dificuldade. Três vezes. Virou a curva e estava na frente ele e o outro, a torcida levantava vibrando o nome de Daniel, enquanto eu saía do meu lugar e me dirigia pra linha de chegada, ele precisava de mim de alguma maneira.
Na hora que cruzou a linha de chegada nem vi o resultado porque aconteceu outra coisa que nunca tinha acontecido com ele. Caiu, cansado. Claro que ele cansava, mas nunca caía, dessa vez caiu. Corri nas escadas e alguns guardas me barraram enquanto eu via o técnico dele correr até ele e chamar mais pessoas para socorrê-lo, meu coração sofreu nesse momento.
- Daniel é meu marido, se me der licença. – Empurrei o guarda sem saber o que ele disse, indo até Daniel e trombando com outro competidor que havia chegado depois na linha de chegada, pedi desculpas e me dirigi ao meu homem.
- O que ele tem? – Perguntei me aproximando, vendo o peito dele subindo e descer pela roupa colada que usava. Ele estava desacordado com os olhos semicerrados, eu tinha avisado que seria perigoso, mas era um teimoso não me ouviu e olha no que deu. Chegou uma maca e eu fiquei meio alarmada. – Mas...
- É necessário, precisamos tirar ele da neve e vamos levar ao hospital mais próximo. – Colocaram-no na maca e enquanto vi o resultado, tinha pegado a prata. Além disso, todos na arquibancada olhavam para nós curiosos, virei seguindo a maca e seguimos para o carro da ambulância com ele envolvido numa coberta, silenciosamente pedi que ele acordasse logo. Entramos na ambulância eu, o técnico de Daniel e uma enfermeira.
- Sinto muito Catherine. Não sabia que ele poderia se esforçar tanto... – Eu barrei aquele senhor de cabelos brancos na sua fala.
- Tudo bem. – Sendo que ele sabia do esforço que meu marido faria, o conhecia bem assim como eu. Não demorou muito e logo no furgão da ambulância Daniel acordou.
Ele acordou assustado, estranhando tudo, eu o vendo eufórica dei um abraço apertado quase o sufocando.
- O que aconteceu? – Ele perguntou, olhando meus olhos.
- Desmaiou. – Disse simplesmente, beijando sua testa, percebendo ele ainda tenso por baixo de mim.
A enfermeira aproveitou e disse para ele comer o doce que ela oferecia, deu água, depois mais algumas bolachas salgadas. Ele comeu, sentando na maca enquanto nós ainda ficamos em silêncio.
- Eu peguei a prata não é? – Eu sabia que esse momento ia chegar então eu só assenti. Ele deitou novamente fechando os olhos. – Meu joelho esta doendo. – Completou e então a enfermeira passou os dedos pelo joelho do meu marido, franzindo a testa. Tirou as mãos.
- Provavelmente foi uma torção. Não apenas uma talvez mais. – Ele suspirou, procurando minha mão que deixamos entrelaçadas até chegar ao hospital.
Chegando lá receitaram para nós uma pomada ao joelho e também alguns comprimidos para evitar a dor excessiva. Depois disso fomos para um banheiro eu e ele com a mala dele nos meus ombros com roupa e produtos de higiene os quais o treinador dele tinha pegado.
- Bom, vamos trocar você. – Estava pegando a blusa dele de manga comprida quando ele me abraçou por trás me apertando forte com aquela roupa gelada de esquiar.
- Devia ter ouvido você. – Ele murmurou no meu ouvido, sorri fraco, passando meus braços por cima dos dele. – Dei uns passos para trás com o meu joelho...
- Mas ganhou uma medalha. – Eu me virei para ele, abraçando-o, mesmo ele estando suado de ter feito esporte. – Estamos quites, além de eu te admirar por ter essa força de vontade. Não vai morrer por ter competido e o nacional é uma vez por ano, fez o certo. – Ri pela minha tagarelice e ele também.
- Estamos quites então. – Sorrindo, deixou um beijo por meus lábios e eu saí do banheiro para dar privacidade a ele. Percebendo que era assim que o amor era e apesar de não fazer o que eu pedi, deu tudo certo e ficamos bem, independente de qual vontade foi satisfeita.

{Espero que gostem, foi meio de última hora no final da criatividade, hehe. Super beijo.}