- O Brasil perdeu mãe, perdeu! - Era uma voz tremida de tanto choro. A mãe do menino agachou, franzindo a testa.
- Calma meu amor, daqui quatro anos vamos ter uma outra Copa do Mundo, vamos ter outra chance de vencer. - Ele chorava ainda mais, então ela escorregou a mão pelas costas do filho, tentando tranquilizá-lo. Parecia muito difícil para ele.
- O Brasil teve um probleminha, falhou esse ano, mas daqui quatro anos vai voltar a toda força! - O pai, Hector, sorriu, voltando da cozinha com um copo de água na mão para o filho tomar. Estendeu a mão, deixando o menino pegar o copo com as duas mãos e tomar curtos goles.
- Vou para o meu quarto. - Tinha se acalmado, mas ainda chorava bastante. A porta do quarto fechou e por enquanto ele ainda não tinha a chave para trancar, mas era o que ele mais queria no momento. Tiago sentou ao lado da cama, escondido, chorando ainda.
Não era possível para ele. Tinha visto esses jogadores fazerem cada jogada sensacional, o Brasil tinha passado nas fases, estava indo pra final, já era certo para ele e então... Acontece uma tragédia. Ele chorava mais. Vai demorar muito quatro anos. E se perder de novo? Era melhor nem pensar. Ao fechar a porta, Raquel queria muito bater na porta, entrar e abraçar seu filho que chorava por causa de um time e de um jogo.
- É assim mesmo, amor. - Hector sussurrou no ouvido da esposa, passando as mãos pelos braços dela, percebendo a tensão que a envolvia. - Sabe que os pequenos sentem mais isso do que a gente. - Ele beijou o rosto dela, envolvendo os braços pela cintura. - Ainda mais ele que colecionou todo o álbum quase me fazendo comprar um outro. - Sorrindo, ele deu mais alguns beijos no pescoço de Raquel que sorriu, virando para ele um pouco mais calma com o carinho.
- Tudo bem, mas mesmo assim queria que conversasse com ele mais a noite. É importante ele entender que nem sempre ganhamos e que isso não move nossa vida. Ele vai ser um menino forte como você. - Sorrindo ela deu um selinho no marido, voltando a fazer o jantar.
Naquele dia todos comeram em silêncio o jantar. Quando a mãe começava a puxar algum assunto o pai continuava e via o pouco entusiasmo para o filho tanto para a comida quanto para o assunto. Logo o menino saiu da mesa indo pro quarto novamente. Só ouve uma troca de olhares entre os adultos. Raquel foi ajudar Tiago, ele tomou banho, colocou a roupa com ajuda e escovou os dentes.
- Pronto, meu amor. - Sorrindo, ela colocou o filho na cama que estava emburrado ainda. - Seu pai vem dar boa noite. - Ela deu um beijo na testa do menino, levantou e fez um sinal com a cabeça para o pai ir até o filho. - Todo seu. - Ela falou baixinho.
Assentindo ele entrou no quarto do filho que já estava deitado e sentou na beirada da cama.
- Ainda triste? - O garotão só confirmou com a cabeça.
- Deixa eu te contar. - Pausou e olhou para ele depois para cama como que recordando. - Eu nasci em 1984, então eu vi a copa de 86, 90, 94, 98, 2002, 2006, 2010 e 2014. Não lembro bem das de 86 e 90. Lembro mais da Copa de 94 que o Brasil ganhou, foi muita festa em casa, lembro que a sua avó fez macarronada nesse dia. Bem na de 98 só posso dizer que fiquei muito mal e não só eu. O Brasil perdeu na final, foi um golpe duro da França é o que todos dizem. Em 2002 ganhou e foi festa também, todos queriam ver o Brasil e depois perdas até hoje nas quais os técnicos eram criticados e os jogadores também. Assim como está sendo essa Copa. - Ele passou as mãos nos cabelos castanhos no filho, olhando-o nos olhos cheios de lágrimas. - Esse papo todo é só pra dizer que com o Brasil eu já passei bons e maus momentos. Sempre ouvimos críticas num ano e no outro só elogios. Tem horas que merecem as críticas e os elogios, mas claro que não queremos ver nosso time criticado. O time do penta. Mas tenho que dizer que nem o time do penta é perfeito. Ele vai perder também, nem sempre ganhamos. E eu vou te dizer, vi oito Copas até agora, oito e ainda vou ver muito mais, sou novo ainda. - Ele sorriu, tentando suavizar. - Tenho certeza que vai ver o Brasil ser campeão do mundo diversas outras vezes com novos jogadores, outros técnicos. Você só tem oito anos. Várias Copas pela frente ainda! - Beijou a testa do menino que estava sereno, sem mais chorar. - Papai te ama. Boa noite.
- Boa noite pai. - Dando um meio sorriso o menino apertou a mão do pai e virou de lado fechando os olhos.
- Obrigada. - Raquel disse logo depois de o marido ter fechado a porta do quarto do filho.
- Não tem de que, madame. - Sorriu com sono e enroscou os braços pela cintura do marido que a envolver com um dos braços, alcançando seus cabelos. - Vamos dormir, mulher.
- Vamos, homem.
Bem, meu primeiro post foi uma minihistória. Vamos ver o que isso vai virar, rs. Valeu gente. (:
sábado, 12 de julho de 2014
Auditório.
"But you only need the light when it's burning low
Only miss the sun when it starts to snow
Only know you love her when you let her go
Only know you've been high when you're feeling low
Only hate the road when you're missin' home
Only know you love her when you let her go"
Essa era a música que eu cantava sozinha com o meu violoncelo soando as minhas arcadas, as quais eu tentava algumas horas fazer a parte do violino e do violoncelo para acompanhar. Aquele auditório estava tão silencioso, somente com a penumbra depois do ensaio da orquestra filarmônica da faculdade que se apresentaria naquele final de semana, tinha decidido ficar pra ensaiar um pouco mais naquela calmaria do auditório fechado, sem janelas, sem pessoas para incomodar meu instrumento a cantar junto comigo. Éramos nós dois. Éramos nós dois enquanto eu não imaginava a orquestra tocando a música, até que comecei a imaginar os instrumentos comigo, sorrindo.
- Lia. - Assustei com a voz que vinha por detrás de mim, escorregando o dedo pelo braço do cello. - Vim perguntar se vai querer carona pra casa. - Esse era Jonas que tocava também na orquestra e estava há uns dois anos na minha frente na faculdade. Como morávamos perto, sempre me oferecia carona depois do ensaio.
- Acho que vou ficar por aqui mesmo. - Ele apareceu no meu campo de visão, com uma das mãos segurando o violino e o violão nas costas.
- Parece triste. - Ele tombou a cabeça analisando meu rosto, me fazendo abaixar um pouco minha cabeça, levemente.
E não era que eu estava triste. Veja, eu estava fazendo faculdade, eu tinha um lugar pra morar, comida. Eu sentia falta da minha família, porque não dava para voltar sempre para a minha cidade e eu tinha terminado com meu namorado há umas três semanas atrás e nem tínhamos ficado muito tempo juntos, uns seis meses. Não tinha me deixado para baixo, sabíamos depois de um tempo que não combinávamos em muitas coisas e não valeria a pena continuar.
- Cansada. - Assinalei levantando uma sobrancelha deixando umas covinhas no rosto de Jonas.
- Isso me lembra Arthur. - Ele sentou na cadeira ao meu lado na orquestra, enquanto eu bufava.
- Não é ele.
- Então tem alguma coisa. O que é?
- Não tem nada. - Tirei o violoncelo do meu ombro, esticando meu braço para olhar meu motorista das quintas com atenção. Ele parecia interessado em saber e pensativo. - O que foi?
- Não quer me contar. - Ele fez um biquinho, apoiando os cotovelos nos joelhos e levantando o pescoço, olhando para cima, meu rosto. Cruzou as mãos.
- Não tem o que contar. - Eu relaxei, deixando meu violoncelo deitado naquele palco.
- Hoje você veio de salto alto, camisa, maquiada. Não aconteceu nada mesmo?
- Ah, sim. - Ri, não tinha contado para ele. - Eu estou trabalhando agora, porque está um pouco difícil para me manter estudando aqui para os meus pais. Decidi trabalhar meio período por agora. Depois talvez eu transfira meu curso para o noturno... Não sei bem.
- Hm, é por isso que está assim. Cansada e tristinha. - Eu o repreendi com o olhar. Não estava triste. - De qualquer maneira, você sabe disso, vai ficar tarde se quiser voltar para a casa de ônibus. Já está tarde. Aceite a minha carona mais uma vez, dama dos cachos dourados.
Dei uma risada meio contida, levantando da minha cadeira.
- É, acho que tem razão. Aceito sua carona, cavalheiro spalla. - Inventei uma muito ruim e fez com que ele balançasse a cabeça.
- Tem muito o que aprender para me alcançar.
- Não duvido nada. - Sorrindo, guardei as partituras. - Já volto. - Fui nos bastidores e guardei cuidadosamente o violoncelo na capa, pondo-o nas minhas costas. Quando voltei ele estava na porta me esperando, mas conversando com alguém. Viu que eu me aproximava, pegando as chaves do carro.
- Ei, Ju, essa aqui é a Lia. - Eu saí do auditório e estava uma menina linda, sardentinha nas bochechas, ruiva, baixinha.
- Oi, prazer.
- O prazer é meu. - Disse para a menina que sorria.
- Eu vou dar carona para ela. Nos vemos por aí Ju.
- Até mais. - Ela acenou indo para a direção contrária a nossa no momento. Ficamos num silêncio confortável, fomos até o carro, eu coloquei o cello no banco de trás e ele o violão dele, junto com o violino e sentamos ambos na frente. Quando ele ligou o carro, a música que eu estava cantando estava no meio, ou seja, ele estava ouvindo a mesma música.
- Passenger é uma boa banda.
- Com toda certeza. - Ele disse, dando ré e saindo do estacionamento. Até o meu prédio ficamos em silêncio novamente enquanto eu ia cantando baixinho as músicas e ele batucando na direção como que só para ele também. Foi assim até que eu desci do carro para pegar o violoncelo.
Aí, as coisas foram diferentes. Ele desceu também. Franzi a testa e fiquei como que parada ao lado da porta, vendo um vinco pela testa de Jonas.
- Eu só queria dizer... - Ele começou, passando a mão pela barba, tentando encontrar as palavras certas. - Eu pouco vejo você com o pessoal da faculdade, sei que fala pouco, poucos amigos. - Pausou, desviando o olhar. - Acho que muitas vezes você pode guardar muitas coisas para você, mas não precisa ser assim. Não aguente muita coisa sozinha, só se for necessário. Mesmo que tenha poucas pessoas para contar, eu estou aqui. - Olhou para mim. - Sou seu amigo, apesar de nos encontrarmos pouco. E quando estiver precisando rir, vai na minha casa depois do ensaio. O pessoal da Rep vai gostar de conhecer você. - Ele sorriu, ao me ver rindo e chorando ao mesmo tempo.
Abracei Jonas tão forte, que mais algumas lágrimas caíram. Acho que era porque tinha que trabalhar ou vai saber o que. Uma confusão de emoções. Ele fez um carinho no meu cabelo, como acalmando uma criança. Ficamos assim por um momento, até eu me afastar.
- Obrigada Jô. - Sorri, soltando o ar. - Estava precisando ouvir isso.
- Eu sei. - Eu revirei os olhos enquanto ele ficou rindo. Peguei meu violoncelo e minha bolsa, enxugando com a mão livre os rastros de lágrimas.
- Se cuida, cachinhos. - Ele deu a volta no carro.
- Eu vou. - Entrou no carro e eu para meu prédio, sorridente.
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