Chegando amarrada a presença do Rei ela soltou o ar
pesadamente. Seus cabelos estavam soltos e enredados em nós constantes, seus
pés nus e sujos além de duas mãos sobre seus braços cobertos por um tecido fino
de linho. Os soldados mantiveram o aperto firme enquanto seu nome era anunciado
por entre os pilares do castelo, seu nome era “prisioneira” para os ouvidos dos
presentes.
- Faça-a vir mais perto. – Nesse momento o Rei Tíbio ergueu
uma sobrancelha, intrigado com a figura magra e suja a qual seus soldados
apresentavam a ele. Como havia um grande lance de escadas até seu trono ele
esperou pacientemente seus soldados a carregarem até ali faltando apenas dois
degraus para alcançá-lo. – Qual foi seu crime, prisioneira?
As leis mantinham-na quieta, mas seu íntimo ansiava aos
gritos para dizer a verdade. Um dos soldados falou por ela.
- Se me permite dizer majestade, apesar de nossa cerca estar
bem visível e sinalizada para todos os membros do nosso reino, instruídos para
não ultrapassarem o limite de nossas terras, essa garota desrespeitou-os e
inclusive pretendia aproveitar-se de nossas cenouras. Roubo. – Esse teria sido
o crime então. Ela não sabia.
- É isso que meu guarda diz, prisioneira? – Despenteando a
barba com os dedos ele analisava o olhar perdido que aquela criatura tinha. Se
cobrindo com suas peles, ele esperou pacientemente a resposta.
- Acredito que sim.
- Não vai defender-se? – Ele perguntou, deixando-a de cabeça
baixa mordendo o lábio com o leve tremor no corpo que a sacudiu.
- Como defender-me se não conheço as leis do seu reino por
completo, majestade? – Ela soltou de uma vez, impedida de olhar para a grande
figura da cena.
- Vem de outro reino? Mesmo que viesse, em todos eles é
proibida a entrada de súditos dentro da propriedade do Rei sem autorização por
parte de meus soldados e guardas.
- Em todo esse terreno, meu senhor, é difícil ter uma cerca
em toda sua extensão. – Mexendo as mãos, ela tentava arrumar uma saída para seu
delito. – Além disso, nenhum dos seus súditos fez a bondade de oferecer-me
comida de almoço principalmente porque nem mesmo eles parecem ter o suficiente
para as famílias. Já que estava faminta há cinco dias, ao atravessar um terreno
e encontrar cenouras frescas subiu no meu juízo deixando-me vulnerável a
instintos.
- Agora fala com palavras coerentes em perfeito juízo.
- Deram-me de comer na prisão.
- Espero que tenha se dado conta que para defender-se,
acusou-me de um péssimo senhor de terras e mau Rei para com meus ajudadores.
Percebe? – O Rei desviou o olhar da criança deitada pela escada de seu trono. –
Geferson, cheque todas as fronteiras de nosso terreno e verifique se há falha
na cerca com a qual a prisioneira tenha se confundido. Os guardas levem-na para
o canto dessa sala esperando a resposta de meu soldado enquanto resolvo a
situação de outros prisioneiros. Que entre o próximo.
Assim sucedeu e depois de uma hora inteira e mais um quarto
o guarda apareceu com as informações necessárias, deixando a prisioneira de pé
num pulo para arrepender-se em seguida com as dores que sentia nos pés.
- Meu senhor, permissão para falar.
- Um momento jovem. Permita que a prisioneira venha até mim
novamente. – Ela, junto com os guardas em seu encalço, posicionou-se como antes
em frente ao Rei. – Responda-me olhando nos olhos. – Tíbio inclinou-se no seu
trono para mais perto da garota que levantou os olhos temendo. Precisava
manter-se firme. – Por onde entrou nas minhas terras? Não pense muito.
- Eu não sei em que momento foi. Andei por campinas e
atravessei um trecho de floresta densa, depois da floresta campina e logo a
horta de cenouras. – Ele demorou-se um segundo no olhar e desatou a sorrir. –
Acredito Geferson que este seja o nosso único trecho sem cerca?
- Sim senhor. Em toda a extensão a possui, menos no meio
dessa floresta densa que se encontra metade em suas terras e metade sendo dos
súditos que utilizam dela para certos materiais. Somente no início colocamos
algumas para sinalizar até onde podem possuir, mas acredito que por ser densa
nem todos conseguem vê-la.
- Não duvido. Está livre dessa pena, prisioneira. Agora
partimos para a segunda parte. Porque pegar as cenouras em terras desconhecidas
sem autorização?
- Fome. – A menina voltou a olhar para baixo. – E pensar na
possibilidade de desocupação dessa terra já existente. Assinalando que nem
cheguei a pegar as cenouras, só fui em direção a elas. Nada que possa fazer-me
culpada.
- Só havia a intensão, portanto? E a intensão não é nada?
- Claro que é, mas só intensão não acredito que faça a lei
valer.
- Agora você entende de leis. Surpreende-me. – Ele riu
motivado a continuar esse pequena discussão. – Quer dizer então que somente com
essa ação eu não poderia punir você? Bem, acho que uma lição que intensão e
atos são bem parecidos não me parece mal. – Ficou pensativo por alguns
segundos. – Três meses de masmorra já que houve intensão de roubo.
Mordendo o lábio para conter o choro, pelo menos ela teria
uma sopa, às vezes.