domingo, 14 de setembro de 2014

Lia

Chegando amarrada a presença do Rei ela soltou o ar pesadamente. Seus cabelos estavam soltos e enredados em nós constantes, seus pés nus e sujos além de duas mãos sobre seus braços cobertos por um tecido fino de linho. Os soldados mantiveram o aperto firme enquanto seu nome era anunciado por entre os pilares do castelo, seu nome era “prisioneira” para os ouvidos dos presentes.
- Faça-a vir mais perto. – Nesse momento o Rei Tíbio ergueu uma sobrancelha, intrigado com a figura magra e suja a qual seus soldados apresentavam a ele. Como havia um grande lance de escadas até seu trono ele esperou pacientemente seus soldados a carregarem até ali faltando apenas dois degraus para alcançá-lo. – Qual foi seu crime, prisioneira?
As leis mantinham-na quieta, mas seu íntimo ansiava aos gritos para dizer a verdade. Um dos soldados falou por ela.
- Se me permite dizer majestade, apesar de nossa cerca estar bem visível e sinalizada para todos os membros do nosso reino, instruídos para não ultrapassarem o limite de nossas terras, essa garota desrespeitou-os e inclusive pretendia aproveitar-se de nossas cenouras. Roubo. – Esse teria sido o crime então. Ela não sabia.
- É isso que meu guarda diz, prisioneira? – Despenteando a barba com os dedos ele analisava o olhar perdido que aquela criatura tinha. Se cobrindo com suas peles, ele esperou pacientemente a resposta.
- Acredito que sim.
- Não vai defender-se? – Ele perguntou, deixando-a de cabeça baixa mordendo o lábio com o leve tremor no corpo que a sacudiu.
- Como defender-me se não conheço as leis do seu reino por completo, majestade? – Ela soltou de uma vez, impedida de olhar para a grande figura da cena.
- Vem de outro reino? Mesmo que viesse, em todos eles é proibida a entrada de súditos dentro da propriedade do Rei sem autorização por parte de meus soldados e guardas.
- Em todo esse terreno, meu senhor, é difícil ter uma cerca em toda sua extensão. – Mexendo as mãos, ela tentava arrumar uma saída para seu delito. – Além disso, nenhum dos seus súditos fez a bondade de oferecer-me comida de almoço principalmente porque nem mesmo eles parecem ter o suficiente para as famílias. Já que estava faminta há cinco dias, ao atravessar um terreno e encontrar cenouras frescas subiu no meu juízo deixando-me vulnerável a instintos.
- Agora fala com palavras coerentes em perfeito juízo.
- Deram-me de comer na prisão.
- Espero que tenha se dado conta que para defender-se, acusou-me de um péssimo senhor de terras e mau Rei para com meus ajudadores. Percebe? – O Rei desviou o olhar da criança deitada pela escada de seu trono. – Geferson, cheque todas as fronteiras de nosso terreno e verifique se há falha na cerca com a qual a prisioneira tenha se confundido. Os guardas levem-na para o canto dessa sala esperando a resposta de meu soldado enquanto resolvo a situação de outros prisioneiros. Que entre o próximo.
Assim sucedeu e depois de uma hora inteira e mais um quarto o guarda apareceu com as informações necessárias, deixando a prisioneira de pé num pulo para arrepender-se em seguida com as dores que sentia nos pés.
- Meu senhor, permissão para falar.
- Um momento jovem. Permita que a prisioneira venha até mim novamente. – Ela, junto com os guardas em seu encalço, posicionou-se como antes em frente ao Rei. – Responda-me olhando nos olhos. – Tíbio inclinou-se no seu trono para mais perto da garota que levantou os olhos temendo. Precisava manter-se firme. – Por onde entrou nas minhas terras? Não pense muito.
- Eu não sei em que momento foi. Andei por campinas e atravessei um trecho de floresta densa, depois da floresta campina e logo a horta de cenouras. – Ele demorou-se um segundo no olhar e desatou a sorrir. – Acredito Geferson que este seja o nosso único trecho sem cerca?
- Sim senhor. Em toda a extensão a possui, menos no meio dessa floresta densa que se encontra metade em suas terras e metade sendo dos súditos que utilizam dela para certos materiais. Somente no início colocamos algumas para sinalizar até onde podem possuir, mas acredito que por ser densa nem todos conseguem vê-la.
- Não duvido. Está livre dessa pena, prisioneira. Agora partimos para a segunda parte. Porque pegar as cenouras em terras desconhecidas sem autorização?
- Fome. – A menina voltou a olhar para baixo. – E pensar na possibilidade de desocupação dessa terra já existente. Assinalando que nem cheguei a pegar as cenouras, só fui em direção a elas. Nada que possa fazer-me culpada.
- Só havia a intensão, portanto? E a intensão não é nada?
- Claro que é, mas só intensão não acredito que faça a lei valer.
- Agora você entende de leis. Surpreende-me. – Ele riu motivado a continuar esse pequena discussão. – Quer dizer então que somente com essa ação eu não poderia punir você? Bem, acho que uma lição que intensão e atos são bem parecidos não me parece mal. – Ficou pensativo por alguns segundos. – Três meses de masmorra já que houve intensão de roubo.

Mordendo o lábio para conter o choro, pelo menos ela teria uma sopa, às vezes.