Foi interessante tudo isso. Peguei minha
carteira vermelha, encaixando-a pela minha mão. As questões são tão incertas e
o mundo tão errado, era a hora de tentar concertar um pouco as coisas que fiz
de errado e aquelas que fiz certo para dar errado. Sabia que o tinha perdido
para um mundo que não se denominava cruel, mas ele era. Doía, doía muito.
Meus sapatos de salto faziam a minha roupa
completa, uma calça preta justa e uma blusa solta azul marinho. Dirigi rápido
para o lugar onde ele costumava frequentar, um lugar de onde eu o tinha tirado
para mostrar que a vida era muito mais que aquele mundo fechado que ele
possuía. Mostrei que não havia necessidade de beber, de se drogar, de dizer
coisas fúteis, maléficas. Ri infeliz, ele somente pensava nas segundas
intenções antes de me encontrar. Enquanto ria, chorava. Enquanto eu o ganhava
eu o perdia.
O azar havia sido meu, e a sorte acompanhada da
escuridão foi o que ele decidiu escolher. Estacionei, descendo do carro e
entrando naquela grande balada da cidade grande. Foi difícil encontrá-lo,
passei por volta de uma hora o procurando até o encontrar um algumas garotas,
balançando o cigarro pelos lábios. Passei uma mão por minha bochecha, aquela
lágrima realmente me irritou, me fazendo soluçar. Controlei-me por um segundo,
até acalmar o meu coração que batia freneticamente dentro do meu peito.
Não vou dizer que tinha tudo certo na vida, mas
tenho certeza de algumas coisas essenciais que não abro mão jamais. Coisas que
eu aprendi e que carrego, não importa o que as pessoas digam. Convicta, me
aproximei dele deixando seus olhos arregalados sobre minha mão, a qual retirava
o anel de compromisso lentamente. Peguei sua mão, deixando as suas duas
mulheres atônitas, entregando o anel.
-Hei. - Ele me chamou, correndo atrás de mim
pela multidão. Eu queria falar, mas não ali. - Me escuta. - Segurando meu
antebraço, me puxou para ele e então sorri.
-Escuta você. - Disse, tentando não ser
ríspida, mas era impossível. - Eu dei tudo aquilo que eu tinha de mais precioso
e depois de um primeiro momento lindo, você zombou de mim. - Cuspi na cara dele
minhas palavras. - Zombou das minhas verdadeiras palavras de tudo aquilo que
mais significava para mim. - Ri, cheia de ironia. - Eu quis ver o seu melhor lado,
porque sei que as pessoas podem mudar para uma coisa melhor do que elas são. Só
que não aconteceu com você e eu fui uma boba. Boba por tentar querer fazer isso
dar certo, enquanto você mentia com sua grande cara de idiota admirado. -
Fechei os olhos. - Consegui me levar a me detestar por ter falhado, por ter me
auto-destruído. Não haverá uma próxima vez, você falhou comigo. Com aquilo que
eu tinha para oferecer. - Meu coração afundou no peito e depois abri os olhos
para encará-lo e ele ainda estava ali estático.
-Eu não queria...
-Mas assim aconteceu. - Disse dura, inflexível.
- Estamos aqui, então é porque não tivemos um bom fim, apesar de um lindo
começo. - Joguei, soltando meu braço de seu aperto firme. - Continuo aqui para
te ajudar naquilo que precisar, mas não corro mais atrás, porque agora cada um
precisa decidir aquilo que quer mesmo que doa. Conte comigo como mais uma
grande amiga do desabafo, mas jamais para algo além disso. Você passou dos
limites. - Fechei os olhos de novo, com medo de dizer aquelas palavras. - Mas,
você também ainda tem chances de se recuperar. Me fechar totalmente seria um
pleno ato de egoísmo e nunca fui boa para isso. Pareço me contradizer, mas
pense nas minhas palavras, porque depois de tudo o que vivemos, aprendemos juntos,
você entenderá.
Dei um sorriso nervoso, ainda vendo seus olhos
sobre mim, impassíveis. Sem expressão? Eu não sabia mais. Aquele não era o cara
que tinha conhecido antes. Levantei meus dois braços, rendida. A situação não
estava mais em meu poder, eu tinha me machucado. Depois de um tempo... Quem
sabe um amigo, nada mais. Afastei meus pés dali voltando para casa. Não
vou dizer que não chorei para não mentir, mas passou. Porque eu tinha algo
muito mais forte para me sustentar.