domingo, 27 de dezembro de 2015

Zombaria e mentiras

Foi interessante tudo isso. Peguei minha carteira vermelha, encaixando-a pela minha mão. As questões são tão incertas e o mundo tão errado, era a hora de tentar concertar um pouco as coisas que fiz de errado e aquelas que fiz certo para dar errado. Sabia que o tinha perdido para um mundo que não se denominava cruel, mas ele era. Doía, doía muito.
Meus sapatos de salto faziam a minha roupa completa, uma calça preta justa e uma blusa solta azul marinho. Dirigi rápido para o lugar onde ele costumava frequentar, um lugar de onde eu o tinha tirado para mostrar que a vida era muito mais que aquele mundo fechado que ele possuía. Mostrei que não havia necessidade de beber, de se drogar, de dizer coisas fúteis, maléficas. Ri infeliz, ele somente pensava nas segundas intenções antes de me encontrar. Enquanto ria, chorava. Enquanto eu o ganhava eu o perdia.
O azar havia sido meu, e a sorte acompanhada da escuridão foi o que ele decidiu escolher. Estacionei, descendo do carro e entrando naquela grande balada da cidade grande. Foi difícil encontrá-lo, passei por volta de uma hora o procurando até o encontrar um algumas garotas, balançando o cigarro pelos lábios. Passei uma mão por minha bochecha, aquela lágrima realmente me irritou, me fazendo soluçar. Controlei-me por um segundo, até acalmar o meu coração que batia freneticamente dentro do meu peito.
Não vou dizer que tinha tudo certo na vida, mas tenho certeza de algumas coisas essenciais que não abro mão jamais. Coisas que eu aprendi e que carrego, não importa o que as pessoas digam. Convicta, me aproximei dele deixando seus olhos arregalados sobre minha mão, a qual retirava o anel de compromisso lentamente. Peguei sua mão, deixando as suas duas mulheres atônitas, entregando o anel.
-Hei. - Ele me chamou, correndo atrás de mim pela multidão. Eu queria falar, mas não ali. - Me escuta. - Segurando meu antebraço, me puxou para ele e então sorri.
-Escuta você. - Disse, tentando não ser ríspida, mas era impossível. - Eu dei tudo aquilo que eu tinha de mais precioso e depois de um primeiro momento lindo, você zombou de mim. - Cuspi na cara dele minhas palavras. - Zombou das minhas verdadeiras palavras de tudo aquilo que mais significava para mim. - Ri, cheia de ironia. - Eu quis ver o seu melhor lado, porque sei que as pessoas podem mudar para uma coisa melhor do que elas são. Só que não aconteceu com você e eu fui uma boba. Boba por tentar querer fazer isso dar certo, enquanto você mentia com sua grande cara de idiota admirado. - Fechei os olhos. - Consegui me levar a me detestar por ter falhado, por ter me auto-destruído. Não haverá uma próxima vez, você falhou comigo. Com aquilo que eu tinha para oferecer. - Meu coração afundou no peito e depois abri os olhos para encará-lo e ele ainda estava ali estático.
-Eu não queria...
-Mas assim aconteceu. - Disse dura, inflexível. - Estamos aqui, então é porque não tivemos um bom fim, apesar de um lindo começo. - Joguei, soltando meu braço de seu aperto firme. - Continuo aqui para te ajudar naquilo que precisar, mas não corro mais atrás, porque agora cada um precisa decidir aquilo que quer mesmo que doa. Conte comigo como mais uma grande amiga do desabafo, mas jamais para algo além disso. Você passou dos limites. - Fechei os olhos de novo, com medo de dizer aquelas palavras. - Mas, você também ainda tem chances de se recuperar. Me fechar totalmente seria um pleno ato de egoísmo e nunca fui boa para isso. Pareço me contradizer, mas pense nas minhas palavras, porque depois de tudo o que vivemos, aprendemos juntos, você entenderá.
Dei um sorriso nervoso, ainda vendo seus olhos sobre mim, impassíveis. Sem expressão? Eu não sabia mais. Aquele não era o cara que tinha conhecido antes. Levantei meus dois braços, rendida. A situação não estava mais em meu poder, eu tinha me machucado. Depois de um tempo... Quem sabe um amigo, nada mais. Afastei meus pés dali voltando para casa. Não vou dizer que não chorei para não mentir, mas passou. Porque eu tinha algo muito mais forte para me sustentar.