terça-feira, 4 de março de 2014

Ponto de ônibus

(Primeiro dia)

- Oi. 
- Oi. - Silêncio. 
- Esse é o seu ônibus? - Ela olhou para cima. 
- Ah, é sim. Obrigada por avisar. - ela sorriu e ele assentiu levantando. 
- É o meu também. 
Os dois subiram e cada um desceu em seu ponto. 

(Segundo dia)

- Oi de novo. 
- Oi. - Ela acenou olhando para a rua desta vez. 
- Quer chiclete? 
- Não, obrigada. - Recusou delicadamente. 
- Claro que quer. - Rindo, ele colocou um ao lado dela que hesitou em pegar apenas por alguns poucos segundos. 
- O ônibus. - Ele apontou e ela levantou num pulo. 
- Acho que vou precisar anunciar toda vez, sua desatenta. - Sorrindo os dois entraram no ônibus descendo em pontos diferentes. 

(Terceiro dia)

- Hei. - Ele chegou. 
- Oi. - Ela falou fraquinho. 
- Você me parece doente. 
- Eu estou doente. - Ela soltou o ar, cansada. 
- Está se sentindo bem? Dói em algum lugar? - Ele estava parado, mas queria muito mover-se para ver a situação dela. 
- Minha cabeça, minha garganta. - Ela disse abraçando-se. 
- O ônibus. - Eles subiram e sentaram-se juntos. 
Desceram no mesmo ponto. 
- O que está fazendo? - Ela disse com o queixo tremendo. 
- Te levando pra casa. 
- Não precisava. 
- Não importa. 
Ela foi na frente pegando as chaves ainda tremendo, abriu o portão da casa. 
- Tem alguém com você? 
- Sim, outra menina que faz o mesmo curso que eu. - Mais silêncio. 
- Cuide-se. - Ele se virou e voltou ao ponto. 

(Quarto dia)

Ela não foi. 

(Quinto dia)

- Melhorou então? 
- Fui ao médico e os remédios estão fazendo efeito aos poucos. - Ela sorriu bem melhor.
- Bom. - Ele deu um meio sorriso. Ela colocou o casaco. 
- Chuva que eu não podia pegar. - Ela soltou e ele franziu o cenho. 
- Amanhã tem um festa no bloco da medicina. 
- Eu não vou nas festas. 
- Menina estudiosa. - Ele riu, deixando-a com as bochechas vermelhas. 
- Sensata. 
- Cada um tem um adjetivo para isso. 
- É mesmo. - Olhando para o além ela o ouviu. 
- Vamos sair amanhã pra outro lugar então. - Ela olhou pra ele rindo, cruzando os braços. 
- Nem concordei com nada. 
- Não precisa, eu sei que vai. - Ele piscou e então subiram no ônibus, sentando-se em lugares diferentes. Dia de ônibus cheio. 

(Sexto dia)

- Vou passar na sua casa daqui uma hora. - Ele sentou e ela soltou um sorriso. 
- Não vai, eu não aceitei nada. - Ele semicerrou os olhos. 
- Não quer sair comigo. - Ela baixou os olhos vermelha nas bochechas, respirou fundo. 
- Não é isso, é que é muito repentino. - Ela tentou dissuadi-lo. 
- Uai, não posso sair com minha amiga? - Ele arregalou os olhos e ela abaixou os ombros. 
- Pode. - Sussurrou, olhando para a rua. 
Viram o ônibus, deram sinal e entraram sentando um ao lado do outro. 
- Tchau, até daqui a pouco. - Ele disse quando ela desceu. 

Uma hora depois... 
- Você veio mesmo! - Ela falou alto com um gritinho. 
- Eu falei que ia estar aqui. - Ele falou casualmente, vestindo jeans e uma camiseta e as mãos nos bolsos. 
- Mas... Eu nem... - Ela olhou para a roupa que costumava usar em casa. Short e camiseta larga. 
- Eu notei e me preparei pra isso. Trouxe chocolate quente nesse frio e também alguns filmes, prefere isso? - Ele sorriu e ela abriu o portão pra ele. 
- Prefiro, mas você em casa? Não sei se pode. - Mordendo o lábio, eles subiram e a colega de apartamento estava ali arrumando a cozinha. 
- Hm, amigo seu? Que novidade. Bem, fique à vontade. Eu sou Gisele e você é? 
- Victor. - Ele sorriu percebendo o olhar fixo da sua menina misteriosa. Não tinham tocado nos nomes ainda. 
- Bom, eu vou na festa da medicina, se comportem. Ouviu Pâmela? - Corou nas bochechas, assentindo. 
- Somos só amigos. - Ela acentuou, afastando-se dele um pouco.
Foram sentar no sofá enquanto sua amiga se preparava para sair, enquanto isso ficaram fazendo guerra com os polegares. 
- Você é bom. - Ela disse, dando tchau para a amiga que saía. 
- Muahahaha, agora você é toda minha. - Victor disse, fazendo cócegas em Pâmela que gargalhava o tempo todo, escorregando do sofá. 
- Para.. - Ela falou entre as risadas, sem fôlego. - Por favor. - Com mais risadas ele parou. - Por um momento pensei que fosse me atacar. 
- E foi exatamente o que eu fiz. - Rindo, escolheram o filme do Thor e colocaram. 
Sentaram no chão tomando o chocolate quente que ele havia trazido assistindo o filme. 
- O chocolate estava muito bom, foi você que fez?
- Foi. - Terminou o filme e ela levantou para tirar o DVD. 
- Tá meio tarde, você já vai? 
- Já sim. - Ele falou, guardando os filmes e a garrafa térmica na mochila. Quando ele passou pela porta ela fez um biquinho. 
- Olha aí, já está gostando de mim. - Sorrindo, eles desceram e ela abriu o portão. 
- Foi legal hoje. 
- Foi sim. Vamos fazer isso mais vezes. 
- Claro. - Ele a abraçou apertado. 
- Vá pra dentro, tá frio e você esses dias estava doente. 
- Tá bom, papai. - Revirando os olhos ela esperou ele desaparecer na esquina e fechou o portão do prédio. 

O que ela não imaginava é que o carro dele estava bem ali.  

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